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Ars poetica
Depois da queda
quarta-feira, maio 14 2008 - 12:05
Alguém de olhos vermelhos,
Mas sem boca para falar:
Não tem palavras que afoguem a dor,
E afunda sozinho num mar de tristeza.
Não aprendeu a nadar
Nas lágrimas dos outros,
Não brincou de chorar
soletrando a dor alheia.


Agora pensa que entrou no palco errado
E sua tragédia é mais uma cena muda.
Mas foi ele que faltou aos ensaios:
Agora não tem mais falas, nem cena
E só a morte lhe acena compreensiva,
Órbitas vazias na espera do último ato.


Alguém de peito aberto,
Mas sem coração para bater.
Não tem braços, nem
Perdas e danos
terça-feira, maio 13 2008 - 01:33
O que mais dói em nós é a dor que desatamos

Ao cortar os nós que nos amarraram o coração

por tanto tempo à sombra do que se prometeu.


Entregues ao tempo e à memória, dois abutres

somos nós, a bicar pedaços felizes do que foi

Sobre a montanha apodrecida do nosso hoje.


Por que não voar em paz, anjos que somos,

E cada felicidade seja sempre branca nuvem,

E os olhos se voltem para aquilo que foi bom?


Que lágrimas afoguem a dor

Der Monde ist nur a nackerte Kugel
terça-feira, maio 06 2008 - 02:56
Kugel1 1 - Kugel1 1

Brasília, 1985

Tinha pouco tempo em Brasília quando assisti a uma Mostra de Cinema Alemão patrocinada pelo Instituto Goethe. “Der Monde ist nur a nackerte Kugel” (A Lua é apenas uma esfera nua) era um dos filmes da Mostra e dele não recordo quase nada, exceto o título, do qual surgiu esse poema, subito, acabado.
E como títulos sempre foram a parte mais difícil dos meus poemas, deixei assim no original como homenagem. Mas não aprendi alemão até hoje…

De rerum natura
terça-feira, maio 06 2008 - 02:33

Todos me dizem: são pássaros!
Quando sei que são travesseiros ao avesso,
Úmidos daquela dor que nada silencia,
Recheados de sangue incandescente,
De sonhos que voam sem pena da terra.

Todos me dizem: são peixes!
Quando sei que são baleias,
Sereias obesas a quem o amor desafinou,
Recheadas de sangue incandescente,
De sonhos que afundam sem pena no mar.

Brasília, 2006

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Fótons que afoguei